Fique por dentro sobre Planejamento de SST

Uma organização que se pretende eficiente na prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho precisa se postar de forma efetiva e lançar mão de estratégias capazes de fazer frente aos seus desafios de segurança e saúde no trabalho (SST).
Postura reativa e improviso são ótimos caminhos para o insucesso. O mais recomendado é a adoção de um Sistema de Gestão de SST (SGSST), não necessariamente certificado.
A maioria dos sistemas de gestão possuem como fundamento o difundido ciclo PDCA[1] (planejamento, execução, checagem, análise crítica e correções).
Neste artigo iremos destacar a fase de Planejamento, etapa crucial da gestão. Para tratarmos de forma mais didática do assunto, iremos apresentar 6 Passos para o planejamento de SST, a saber:
- Análise de cenário
- Identificação dos perigos
- Avaliação de risco
- Requisitos legais e outros
- Definição de objetivos e metas
- Planos de Ação
Registre-se, inicialmente, que quanto mais abrangente ou restrita for a Política de SST da Organização, na mesma medida, serão os limites do planejamento, especialmente os objetivos a serem traçados e suas respectivas metas.
Primeiro Passo – Análise de Cenário
É mais do que recomendável que antes de se iniciar o planejamento seja realizada uma avaliação do cenário interno da organização, bem como do cenário externo à esta, com o objetivo de se verificar limites e possibilidades de suas realizações pretendidas. Internamente, questões como disponibilidade financeira, qualificação de pessoal, tempo e posicionamento no segmento de atuação, cultura organizacional (no nosso caso, cultura de prevenção), são decisivas para o sucesso ou insucesso do planejamento. Por outro lado, é preciso se está atento às questões externas que afetam direta ou indiretamente o negócio ou atividade da Organização. Nesse sentido, cite-se, por exemplo, cenários de crises ou de crescimento da economia, inflação, novidades legislativas, instabilidade política, novas exigências em termos de padrão de qualidade de produtos, etc.
Para o cumprimento dessa etapa, uma das ferramentas mais utilizada é a Análise de SWOT. De acordo com Daycoum (2016), essa ferramenta é usada como base para a gestão e o planejamento estratégico de uma Organização. A técnica é creditada à Albert Humphrey, que liderou um projeto de pesquisa na Universidade de Stanford nos anos 60 e 70. Segundo o autor, pela simplicidade a análise de SWOT é utilizada para qualquer tipo de análise de cenário, para criar um blog ou par gerenciar uma multinacional.
SWOT é uma sigla em inglês onde cada uma das quatros letras da sigla representa uma palavra (Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats). A tradução mais usual dessas palavras para o português, respectivamente, é: Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças.
Como aplicar a Análise de SWOT
A técnica que recomendamos é dispor as palavras na forma de uma matriz, conforme a figura 1, e proceder a análise da ambiência interna, inicialmente, para em seguida analisar a ambiência externa.

Em se tratando de uma análise de cenário com o objetivo de elaborar o Planejamento de SST, recomenda-se que participem desse momento a equipe técnica de SST, podendo outras pessoas da Organização participarem também, já que se trata de uma visão não de cenário um pouco mais abrangente.
De forma objetiva, uma pessoa assume a coordenação da atividade, devendo abrir a discussão para a análise do ambiente interno da Organização. Nesse caso, cada participante deve indicar o que julga representar forças da empresa (aqui entendido como algo que favorece atingir objetivos, que torna a organização capaz de evoluir de forma positiva). Na sequência, os participantes passam a relacionar o inverso, isto é, as fraquezas da empresas (Neste caso, tudo que pode impedir ou dificultar se atingir novos objetivos, aquilo que fragiliza a empresa em relação aos seus concorrentes ou mesmo representa obstáculos para o seu crescimento de uma forma geral). Importante, forças e fraquezas são atributos internos, ou seja, características da Organização.
Concluída a análise da ambiência interna, passa-se de imediato à avaliação do ambiente externo. A forma de proceder nesse segundo momento é a mesma da anterior, isto é, o coordenador da atividade, agora, pede aos participantes da análise de cenário que listem o que consideram como oportunidades (aspectos e fatores da conjuntura geral que representam oportunidades competitivas para a organização, possibilidades de evoluir no seu segmento de atuação) e, finalmente, listem aquilo que é considerada uma ameaça (aspectos e fatores da conjuntura geral considerados negativos, os quais podem impedir ou dificultar a organização evoluir no seu segmento de atuação).
Na avaliação de ambiência interna e externa, quando o objetivo é o planejamento de SST, deve ser considerado aspectos específicos da área e não apenas a realidade mais geral que envolve a organização.
Registre-se que enquanto os fatores determinantes do ambiente interno estão sob a governança dos dirigentes e colaboradores da organização, ao contrário, o ambiente externo independe dos gestores das empresas.
O produto final desse primeiro passo será um relatório da análise de cenário que oportunizará uma visão crítica da realidade da empresa, considerando seus aspectos internos e também os aspectos externos que exercem ou poderão exercer influência no seu desempenho.
Segundo passo – Identificação de Perigos
Costumo dizer que, em resumo, a gestão de SST traduz-se em identificar perigos e controlar riscos. De forma simplificada, o que se deseja é chamar atenção para o quanto representam essas duas ações na prevenção de acidentes e doenças ocupacionais.
De acordo com o item 3.19 da norma ISO 45.001:2018, perigo é a fonte com potencial para causar lesões e problemas de saúde. Em matéria de SST, interessa os perigos com potencial para gerar acidentes ou doenças ocupacionais. Pode-se facilmente listar várias situações perigosas, a exemplo de trabalho em altura; ruído; calor; trabalho com pacientes portadores de doenças infectocontagiosas; piso escorregadio; energia elétrica; gases e vapores, posturas e movimentos inadequados, gestão temerária de pessoas, controle exagerado de atividades, etc. O termo em inglês que é traduzido para português e equivale a perigo, é normalmente, Hazard. É comum se utilizar também fator de risco como equivalente a Perigo.
A identificação de perigo ou fatores de riscos pode ocorrer a partir de várias técnicas ou estratégias. Apenas para que não nos esqueçamos, estamos falando de situações perigosas de SST, logo não nos interessa nada que não seja aquilo com potencial para gerar acidentes ou doenças ocupacionais. Nesse sentido, é preciso que se compreenda que os perigos ou fatores de riscos estão, normalmente, associados à: processo produtivo; instalações prediais (edificação; instalações elétricas, estacionamento, central de gás, escadas, rampas, elevadores etc.); máquinas e equipamentos; atividades de manutenção e limpeza; condições ambientais; leiaute, inclusive mobiliário e gestão de pessoas e atividades,
A identificação ou levantamento dos perigos pode ocorrer de maneiras diversas. A título de sugestão, vamos indicar algumas formas de executar essa tarefa que podem ser adotadas de forma complementar
- Análise do processo produtivo
A técnica consiste em se fazer análise das situações de perigo por etapa dos processos de produção. A separação das etapas dos processos pode ser feita com a análise dos fluxograma de produção e a partir de inspeção. Dependendo da situação, uma etapa considerada mais complexa pode ser subdivida para permitir uma avaliação mais precisa dos fatores de risco existentes. Com essas informações em mãos, a equipe responsável deve fazer uma inspeção detalhada das linhas de produção e, conforme etapas definidas, levantar as situações de perigos detectadas.
- Instalações prediais
Nesse caso, o que se recomenda é uma inspeção planejada para verificar as condições relativas à estrutura da edificação (problemas em telhado, sinais de fissuras e trincas, escadas, rampas, condições de piso, ventilação e iluminação, etc.). Pela importância, deve-se também realizar inspeção dirigida às instalações elétricas e sistema de prevenção e combate a incêndio.
- Máquinas e equipamentos
Em muitos casos, faz-se necessário um levantamento de perigos relativos especialmente à máquinas e equipamentos pelo potencial que representam para provocar acidentes, danos pessoais e materiais. Assim, recomenda-se fazer um inventário com as características básicas, a partir dos manuais desses equipamentos. Na sequência, deve-se proceder a identificação dos fatores de riscos, pelo menos em três fases de operação: partida, alimentação (caso de combustíveis), operação e desligamento. Oportuno frisar que o levantamento de perigo e, inclusive, análise de riscos de máquinas e equipamentos é uma exigência da NR 12, do Ministério do Trabalho.
- Resultados de auditorias
Outra estratégia que deve ser considerada para o levantamento de perigos são os relatórios de auditorias (internas ou externas). Elas podem funcionar como uma fonte para essa tarefa já que traz as não conformidades detectadas que deveram ser objeto de plano de ação.
- Entrevistas e Questionários
Por fim, você pode se valer ainda da aplicação de entrevistas ou mesmo de questionários dirigidos à alguns empregados que operam máquinas, processos ou que coordenam atividades consideradas potencialmente perigosas.
Essas estratégias apresentadas não são excludentes, podendo ser adotadas de forma simultânea e complementar. Também, é importante frisar a necessidade de se contar com profissionais de outras áreas nessa tarefa de levantamento de perigos, tendo em vista que alguns casos os conhecimentos técnicos da equipe de SST não são suficientes para uma inspeção mais detalhada e eficiente. Assim, o pessoal das áreas de eletricidade e mecânica, por exemplo, são importantes aliados.
Terceiro passo – Avaliação de Risco
Segundo a norma OHSAS 18001/2007, item 3.21, risco é: “Combinação da probabilidade da ocorrência de um acontecimento perigoso ou exposição e da severidade das lesões, ferimentos ou danos para a saúde, que pode ser causada pelo acontecimento ou pela exposição”. De forma resumida, pode-se dizer que risco se refere a probabilidade de ocorrência de um acidente ou doença ocupacional devido à exposição a situações perigosas, considerando também as prováveis consequências de tais ocorrências (lesões ou mesmo a morte). A avaliação de risco, portanto, é normalmente realizada com o uso de planilhas especialmente elaboradas para esse fim. A figura 2 é um exemplo de uma planilha que pode ser aplicada. A seguir, passaremos a uma breve explicação de como aplicar a planilha (cada uma das colunas).
Figura 2 – Planilha de análise de risco
- Etapa da atividade: diz respeito a cada uma das etapas em que a atividade foi dividida para tornar a avaliação mais eficiente e detalhada;
- Perigo/Fator de Risco: perigo ou fator de risco associado à etapa da atividade
- Acidente/Doença: acidente ou doença do trabalho possível de ocorrer em função da exposição ao perigo/fator de risco;
- Dano: refere-se ao dano pessoal (pode listar também danos materiais e ambientais) que pode ocorrer na presença do acidente ou doença ocupacional;
- Controle existentes: medidas de prevenção identificadas
- Controles necessários: medidas de prevenção adicionais necessárias para a efetiva proteção
- Probabilidade: avaliar a probabilidade de ocorrência do acidente/doença em função da exposição à fonte de perigo e considerando os controles existentes e os necessários.
- Gravidade: estimar a gravidade do acidente/doença, caso ocorressem;
- Grau de risco: o grau de risco resulta normalmente da soma ou multiplicação da probabilidade (P) com a gravidade (G). Neste caso, adotou-se a equação P + G;
- Classificação do risco: finalmente, o risco é classificado para se ter uma ordem de relevância. É só consultar a legenda e verificar a classe do risco, considerando o grau deste.
Quarto passo – Requisitos legais e outros
Nessa etapa deve-se fazer um levantamento detalhado no sentido de se identificar todos os requisitos legais em matéria de SST que a Organização deve cumprir obrigatoriamente. Além desses requisitos legais deve-se verificar outros aspectos que julgue-se importante e possível de se atender nas ações que serão definidas no planejamento, visando uma evolução da organização na cultura prevencionista.
Quinto passo – Definição de objetivos e metas
Agora, depois dessa longa caminhada, é o momento de definirmos os objetivos e metas do planejamento, considerando todas as etapas anteriores. Esse é um momento muito especial, pois implicará em ações e investimentos por parte da Organização. É importante fazermos aqui algumas observações sobre esse passo.
- Cada objetivo proposto deve estar alinhado com todas as etapas anteriores (avaliação de cenário, levantamento de perigos, avaliação de riscos e requisitos legais);
- Os objetivos devem ser elaborados, preferencialmente, começando com um verbo no modo infinitivo que indica ação. Exemplo: reduzir o nível de resistência de colaboradores para uso de EPI;
- As metas são a quantificação dos objetivos. Isto é, ao se definir um objetivo como, por exemplo, reduzir o índice de absenteísmo da empresa, a meta irá definir em quanto pretende-se essa redução, por exemplo em 10%.
Sexto passo – Plano de Ação
O plano de ação é o documento que contém as ações que devem ser executadas para o cumprimento dos objetivos traçados no planejamento. É a parte operacional, é a partir dele que o planejamento sai do papel e movimenta todo o trabalho de prevenção, gerando os resultados esperados. O plano de ação deve ser elaborado a partir de algumas perguntas, porém, uma em especial: Qual ação a tomar? Isto é, quais ações deverão ser realizadas para que os objetivos traçados no planejamento sejam efetivamente atingidos.
Para facilitar e melhor organizar o plano de ação, existem alguns modelos sugeridos. Mas, cada organização pode e deve estruturar seu planejamento conforme suas conveniências. Um dos modelos mais conhecido é o 5W2H, que propõe sete perguntas que podem ser dispostas numa planilha, as quais traduzem a essência de um plano de ação. A figura 3 representa a ferramenta.
Figura 3 – Diagrama representativo da ferramenta 5w2h
Disposta em uma planilha, a ferramenta 5W2H ficaria como segue na figura 4.
| O que | Porque | Como | Onde | Quando | Quem | Quanto |
| Descrever a ação | Finalidade | Forma de execução | Local ou setor de aplicação | Prazos | Responsáveis | Custo (R$) |
Figura 4 – Planilha com aplicação da ferramenta 5W2H
Conclusão
O planejamento das ações visando a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho é uma atividade que exige organização e disciplina para que efetivamente se torne uma aliado estratégico no gerenciamento eficaz de riscos da empresa e, o mais importante, na garantia de um desempenho eficaz da Organização em matéria de SST.
Por se tratar de uma estratégia fundamental para a organização e ainda por envolver atividades que impactam no cotidiano da produção, além de necessitar de investimentos para o custeio das ações definidas, o planejamento precisa ser validado pela Direção da empresa.
Uma Organização que renuncia ao planejamento e tem como marca o improviso e a postura reativa em SST, certamente expõe-se de forma perigosa, podendo ter que lidar com situações indesejáveis e graves em termos de acidentes do trabalho e ainda acumular passivos trabalhistas significativos.
Referências
Daycoum, Mehi. 40+16 Ferramentas e Técnicas de Gerenciamento, Rio de Janeiro, Brasport, 2016.
ISO. Norma ISO 45001. sistema de gestão de Saúde e Segurança Ocupacional (SSO), 2018
OSHAS. OHSAS 18001:2007. Occupational Health and Safety management systems. Requirements. OHSAS, 2007.
